dum azul esbranquiçado são as hortênsias

dum azul esbranquiçado são as hortênsias
e teu olhar de leite aceso por cima do mar
a luz filamentosa estilhaça a resina
os escaravelhos repetem correrias às arrecuas
pelas dunas... ouço-te ao alinhar estes pedaços de espelho
estes reflexos de água contigo dentro
semelhantes a dejectos dalgum sonho oxidado
na bainha lodosa da praia
alguém levantou a voz e disse:
       o lodo, é o perverso alimento dos anjos

ouço-te
e com um gesto brusco aliso o sal dos rochedos
a surpreendente floração da urze e da alfazema
apago com a fala a hesitante escrita das algas
ascendo aos espaços de silencioso lume
onde as palavras deixam tombar pétalas em chamas

assim te nomeio:
       precioso búzio, nocturna música, mar interno
       transparente mão exterminadora

eclodem conchas no crepuscular percurso das mãos
da profecia ergue-se a noite com o teu recente corpo
queima-se de órbita em órbita...o sangue devagar

eu vou continuar aqui
arrumando as pedras os fogos o cuspo os astros as veias
a florida água das paixões
daquela memória todos os actos
onde a ausência do corpo-amante adquiriu a ternura do barro
e a vida esquecida dalguma cassiopeia

Al Berto


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