Para os filhos dos homens que nunca foram meninos...

Fecharam os telhais. Com os prenúncios de outono, as primeiras chuvas encheram de frémito o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. — Vento para enxugar e sol para calcinar — sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.

Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
— Indústria pobre, senhor Castro — chorava-se o Zé Vicente ao pagar a renda do terreno.  — Indústria pobre... — E era.
Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe — sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia sete de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumentos de lata e cega-regas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao ceu. Patrões e mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: — Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornada é o resto. — Mas a cadência dos assos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.
Ali se guardava o suor dum verão de fadigas, Vento e sol; fadigas e suor — era o que os telhais queriam.


Antes...

Natal 2011

:)


Comentários

Hugo Nofx disse…
Eu arrepiei-me ao ler o excerto que publicaste.

Olha que três!
Soeiro Pereira Gomes!
Álvaro Cunhal!
E o doce URBANO!!!

Tenho que comprar esta edição!

beijos.
nêspera disse…
Livro lindo!
O menino Jesus portou-se muito bem.

Beijo :)

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