Desde a aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.
Eugénio de Andrade

Comentários

Sa(ha)ra disse…
Um dos poetas que amo...muito.

Tudo o que escreve tem uma carga imensa, que não deixa insensivel nenhuma "artéria"


Beijinho
nêspera disse…
Um dos eleitos....

Bjis :)

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